
Gravidez já é por si só uma situação que requer cuidados especiais. Além das transformações físicas, existem as transformações emocionais. A mulher precisa estar madura para esta fase de vida e de preferência ter planejado o filho.
A gravidez na adolescência contraria o curso da vida. É um tempo em que se vive o mundo dos sonhos e um filho pode trazer uma dura realidade. A gravidez de uma menina pobre é uma situação ainda mais delicada, pois além de não ter estrutura emocional para entender as implicações da maternidade (um filho é para a vida toda), ela não dispõe dos recursos necessários para fazer uma boa alimentação e nem tampouco para providenciar o enxoval do bebezinho. É fácil acusar estas meninas de serem sem vergonhas e dizer que o problema é delas. No entanto, elas são frutos de gerações com a mesma história, de pessoas mal nutridas na alma e no corpo.
Enquanto políticas públicas não investem em campanhas de esclarecimento direcionadas aos jovens, cada um de nós pode fazer um pouco, pois o pouco de cada um faz uma enorme diferença.
Foi pensando nisto que algumas amigas e eu nos reunimos para estudar uma maneira de amenizar a vida de algumas destas jovens. Começamos com um pequeno grupo de 15 grávidas do Morro da Providência no Rio de Janeiro. A idade média era de 17 anos, sendo que algumas já estavam na segunda gravidez. O que mais me impressionou nelas foi o olhar triste e a falta de ânimo, confirmando o fato de que a gravidez fora de tempo não é motivo de alegria. Uma delas, já no oitavo mês, tinha uma marca de ferro de passar na barriga. Não bastassem as dificuldades do seu estado, ainda sofria por violência doméstica. Estas meninas tem um sério problema com sua auto-estima.
Percebemos que mais do que fornecer alimentos, enxoval e ajuda médica, estas meninas precisavam de amor; de alguém para ouvir o grito de seus corações. Naquele primeiro instante elas estavam muito quietas, pois a vida lhes ensinou a não confiar em ninguém. Apenas uma, a mais velha de todas, se aventurou a pedir uma ligadura de trompas. Já estava na quinta gravidez!
Nosso grupo de mulheres começou, então, a fazer bazares a fim de levantar recursos. Durante este trabalho, conhecemos gente interessante e percebemos que existem muitas pessoas do bem que querem ajudar, mas não sabem como. Assim, um grupo de voluntárias se formou para ensinar a fazer bijuterias, maquiagem, corte de cabelo, além de um ginecologista e um psicólogo para fazerem palestras. O objetivo é conscientizar estas meninas a não caírem novamente na armadilha de uma gravidez indesejada e de rasgar nos horizontes a perspectiva iluminada de uma nova vida. É um trabalho lento que requer muita dedicação e determinação. Coisa que não falta ao nosso grupo.
Nossa ONG ainda engatinha, mas nos alegra saber que já podemos fazer a diferença na vida de algumas pessoas.
Sylvia Jane Hodge Crivella
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